Open Startup
O termo "Open Startup" não é novo, mas ainda é bastante específico. Há Open Startups com milhões de faturação, contudo apenas uma minúscula percentagem de Startups hoje em dia se enquadra nesta categoria.
No entanto, com o recente movimento de "Building in Public" (Construir em Público) e o crescimento das COSS (Commercial Open Source Software Companies), tem-se tornado cada vez mais popular. Antes de mergulharmos nos detalhes, comecemos por rever alguns aspetos fundamentais:
O que é uma Open Startup?
@dinkydani escreveu um excelente artigo no HackerNoon sobre Open Startups com cerca de 3 anos de existência, referindo-se às Open Startups como
“um movimento de transparência e abertura aparentemente iniciado pela Buffer, rapidamente adotado pela Ghost, capitalizado pela Baremetrics, e recentemente popularizado na comunidade de Indie Makers por Pieter Levels"
Embora não exista uma definição formal do que qualifica uma Open Startup, de quais métricas são necessárias ou em que medida uma startup precisa de publicar os seus KPIs, a ideia comum é: Qualquer Startup que partilhe as suas métricas de forma tão aberta quanto técnica e operacionalmente possível é uma Open Startup.
A grande maioria das startups, como a Cal.com, aloja a sua página de Open Startup na página /open. Entre em cal.com/open.
Nem todas as Open Startups são startups COSS e ser uma startup COSS não faz de si necessariamente uma Open Startup, no entanto, a natureza e os valores do Código Aberto tornam muito mais fácil construir uma cultura de abertura, transparência e, consequentemente, confiança.
Porque deveria eu importar-me com isso?
Para ser sincero, as Open Startups têm muita dificuldade em enganá-lo. Quase tudo o que fazem é público.
Os investidores veem o desempenho de uma empresa.
Os colaboradores veem sempre o que se passa internamente.
Os clientes veem quão ativos são os ciclos de desenvolvimento e em que é que o seu precioso valor de subscrição mensal está a ser gasto.
Como fundador, não está apenas a construir um produto. Está a construir uma organização e a sua cultura. Se acredita que o código deve ser aberto e transparente, porquê parar por aí?
Por fim, ao construir um produto em público que exige uma comunidade ativa e empenhada, a partilha dos marcos alcançados pode ajudá-lo a recrutar fãs verdadeiros que estão ativamente interessados no crescimento do projeto.
Para alguns, é como torcer pelo seu clube de futebol preferido para que ganhe e melhore!
Salários Abertos
Algumas Open Startups vão inclusivamente ao ponto de abrir os seus salários, o que se traduz numa organização ainda mais transparente que pode ajudar a atrair melhores talentos que valorizam essa abertura.
Salários Abertos também ajudam a mitigar o nepotismo, o abuso do poder executivo e, no geral, levam a uma maior justiça ao estruturar as tabelas salariais.
Como fazemos na Cal.com
Desde os primeiros dias do projeto que desenvolvemos ativamente a nossa página /open. Creio que foi a terceira página que criámos internamente, mas não tínhamos anunciado publicamente a sua existência até hoje.
Ficou claro para nós que a secção das equipas seria a mais importante, porque essa é a base de qualquer organização.
Os salários e as taxas horárias dos freelancers dependem de consentimento (opt-in), o que significa que, se um membro da equipa não se sentir confortável em partilhar publicamente esta informação sensível (por vezes por uma excelente razão), nunca será obrigado a publicá-la.
Contrariamente à maioria dos conselhos existentes, a receção por parte da equipa tem sido incrivelmente positiva. A transparência reduz a inveja, aumenta a justiça e promove a igualdade racial e de género.
As restantes métricas incluem: utilização ativa semanal, reservas semanais, novos clientes do nosso plano alojado, Pull-Requests incorporados (ou seja, "quanto código está a ser publicado"), "monthly burn" (despesas após receitas), Estrelas do GitHub e muito mais está para vir!
Salários Globais
Este tema é o mais controverso e o mais desafiante. Não há um vencedor claro entre salários globais (todas as pessoas com a mesma antiguidade e cargo recebem o mesmo, independentemente da localização) ou salários localizados (cada pessoa tem um salário individual baseado na sua localização)
Pensámos muito sobre isto internamente e chegámos à conclusão de optar pelos salários globais, mesmo que organizações totalmente remotas, como a Gitlab, tenham funcionado com sucesso com salários localizados no passado.
Passamos a explicar o porquê:
Acreditamos que a sua compensação em qualquer organização deve basear-se puramente na meritocracia e naquilo que traz para a empresa. Nenhum gestor deve saber, nem querer saber, sobre os seus padrões de vida e estilo de vida pessoal.
A nossa empresa nasceu na web e vive na web. A nossa equipa é totalmente distribuída e trabalha online. Não temos sede física nem planeamos ter uma. Somos todos cidadãos do mundo digital e, por conseguinte, iguais.
Não se deixe convencer do contrário, a sua remuneração será sempre transacional. E a transação mais justa é dinheiro em troca de trabalho.
Se o trabalho for de igual qualidade, é justo que o pagamento em dinheiro seja igual.
Não nos importa se escreveu a linha de código na Costa Rica, na Suécia ou em Portugal.
Trabalho = Dinheiro.
O futuro do trabalho é assíncrono e compatível com o nomadismo:
Toda a organização funciona de forma assíncrona e ambos os fundadores da empresa são “nómadas digitais” (nómadas de curta duração) que trabalham a partir de vários países diferentes.
Acreditamos convictamente que esta se está a tornar uma tendência cada vez mais comum e que apenas os salários globais são verdadeiramente compatíveis com ela.
Outro argumento forte contra os salários localizados é a própria falta de aplicabilidade.
Imaginemos que se encontra atualmente na Bay Area de São Francisco, mas tenciona mudar-se para a Europa. Informa o seu gestor? O gestor persegue-o e expõe esta situação internamente? Como se sentem os membros da sua equipa quando descobrem que está a auferir 4 vezes o salário deles, apesar de agora serem vizinhos?
Isto para não mencionar a dificuldade prática em idealizar uma fórmula justa de salários localizados:
Imaginemos que utilizamos um multiplicador regional e obtemos um salário base. O multiplicador tem em conta o valor da renda da pessoa? O custo de vida médio nessa região? Onde se obtêm esses dados? São atualizados mensalmente? Anualmente? E se a pessoa viver em casa dos pais? O que significa afinal "custo de vida"? Inclui dependentes? Créditos habitação? Dívidas de propinas universitárias? ..?
Sob coação, eu não saberia como escrever esta fórmula de forma imediata.
Em suma, acreditamos que os salários localizados são injustos, difíceis de calcular e quase impossíveis de aplicar sem ter de contratar um detetive privado para espiar os colaboradores (nada correto).
Como
Como a maioria das startups, diferenciamos os membros da nossa equipa por níveis de antiguidade e cargos:
Nível IC 1 (Júnior)
Nível IC 2 (Intermédio)
Nível IC 3 (Sénior)
Utilizamos os modelos de contrato da Deel, o que também ajuda na transparência e na padronização de salários.
Aqui estão as nossas tabelas salariais.
Pode ler isto e questionar-se sobre como raio um engenheiro júnior na Bay Area conseguirá pagar a renda recebendo apenas $60.000? Exato. Essa é uma das desvantagens dos salários globais: afastar pessoas de regiões altamente privilegiadas.
A nossa linha de raciocínio é: como empresa que procura construir a melhor equipa, preferimos contratar a pessoa mais talentosa de uma região com custos baixos do que um elemento abaixo da média pelo dobro do valor vindo de um mercado de trabalho altamente competitivo.
Muitos profissionais da área tecnológica podem não gostar disto, mas o trabalho remoto apenas acelerará o ritmo de mercantilização do trabalho intelectual.
Além disso, acreditamos que, sendo uma organização que tem como missão conectar mil milhões de pessoas até 2031, podemos ter um impacto ainda mais positivo no mundo se pagarmos ligeiramente acima da média a algumas regiões com custos mais baixos do que perdendo a corrida competitiva nos mercados de trabalho que já são maioritariamente dominados por salários e regalias das grandes multinacionais tecnológicas. Poderá atrair um engenheiro da Bay Area com um salário astronómico, mas provavelmente não conseguirá mantê-lo por muito tempo.
Procuramos ligar e capacitar milhares de milhões de pessoas em todos os cantos do mundo e os salários globais vão ajudar-nos a alcançar ainda mais este objetivo.
Dito isto, não somos os donos da verdade absoluta nem conseguimos prever como será o futuro. Talvez alteremos esta política nos meses vindouros mas, por agora, parece-nos a decisão mais acertada ao comparar os prós e os contras.
Adicionalmente, poderemos tomar decisões com base em negociações pessoais com os colaboradores, ou seja, pagamentos de bónus ou regalias individuais (ex.: apoiar a família ou financiar um terapeuta), se necessário.
Se o mesmo nível de antiguidade tiver um salário diferente, deixaremos uma nota explicativa à equipa justificando o porquê de se ter aberto essa exceção (ex.: aquisições corporativas, contratações por aquisição ou executivos recrutados de outras empresas), embora tal ainda não tenha acontecido.
Estou convencido, que ferramentas utilizam?
Utilizamos:
PostgreSQL para armazenar os nossos dados
Jitsu.com para acompanhar a telemetria e eventos anonimizados
Metabase.com para executar consultas e apresentar os gráficos
Stripe.com para receber pagamentos
Orbit.love para análise de dados da comunidade
AskGit.com para obter análises de dados do GitHub
Airtable.com para armazenar informação estática
SyncInc.so para sincronizar o nosso Airtable (e em breve o Stripe) numa base de dados dedicada PostgreSQL que se liga à Metabase
Estão a planear adicionar mais métricas?
Sim! A nossa página cal.com/open é um projeto em curso que me é muito querido.
O meu objetivo de vida pessoal é ser o mais transparente e honesto possível em termos técnicos e operacionais, ao mesmo tempo que tento manter o tempo de configuração e de manutenção o mais reduzido possível. Para saber mais sobre como a nossa visão relativa à transparência continua a evoluir, leia uma mensagem do nosso fundador sobre o nosso próximo capítulo.
Por exemplo, planeamos apresentar os nossos dados do Stripe na Metabase, mas é uma verdadeira dor de cabeça fazer isto de forma correta e temos outros assuntos mais prioritários com que nos preocupar primeiro.
Tudo o que se refere a receitas, retenção e taxas de cancelamento (churn) será provavelmente lançado antes de dezembro de 2021! Promessa de escuteiro.
Onde posso encontrar mais Open Startups?
Agradecimentos
Sendo eu próprio um nómada, Pieter ‘@levelsio’ Levels, da Nomadlist, tem sido uma enorme inspiração
A equipa por trás do Buffer que tem vindo a impulsionar a transparência há anos
Joseph Jacks, da OSSC, por nos apoiar nesta iniciativa e por ser um verdadeiro embaixador do Código Aberto
Patrick DeVivo por nos disponibilizar uma conta gratuita em AskGit.com e ajudar-nos a visualizar os nossos dados do GitHub
Obrigado por ler e por confiar na nossa missão.
É uma honra servir cada um de vós e estamos ansiosos por saber o que pensam. Se tenciona trabalhar numa Open Startup e vivenciar a sua cultura, estamos a recrutar!
Com os meus melhores cumprimentos, Peer
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